quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A ENTREVISTA DO MÊS

Nosso primeiro personagem na “CriAção” desse espaço é “Clarindo da Cantina da Lua”.
Do ano de 2.000 para cá, começa despertar em Clarindo a curiosidade ecológica sobre as espécies vegetais que brotavam nos telhados e fachadas carcomidos pelo tempo, do casario ainda por ser reformado nas vielas do Pelourinho. Na sua filosofia viva lembrava a carta de Caminha – “em tudo nela se plantando dá”, pois surgiam viçosas entre as pedras seculares e velhos tijolos, nas ruas: Saldanha da Gama, São Francisco, Ladeira da Praça, Ladeira da Misericórdia, Ladeira da Montanha, Ladeira da Preguiça, Rua Guindaste dos Padres, Taboão, Julião, Rua do Bispo, dentre outras.
Foram cerca de aproximadamente duzentos pontos levantados, anotando e observando a variedade de plantas em todo esse roteiro.
- E aí Clarindo o que lhe deu na cabeça ? Vi a natureza pedindo o seu retorno e idealizei um documentário que me veio logo à cabeça o nome de “A FORÇA DA NATUREZA”.Não podemos deixar de dar um enfoque a devastação da nossa Mata Atlântica, da necessidade de se economizar a água, a questão da reciclagem do lixo, por fim o aquecimento global. Depois quem sabe, um livro caracterizando as várias espécies, família e a historia de cada um desses velhos sobrados.É hoje o sonho que estou tornando realidade.
- Diga um pouco de sua origem e chegada a Salvador – Nascido em Conceição do Almeida, filho de família pobre com uma prole de dez irmãos.Em1950 meus pais no desejo de um futuro melhor para os filhos resolvem mudar-se para Salvador.
- A viajem durou 17 horas, de caminhão até Santo Antonio de Jesus, daí de trem até São Roque do Paraguassu onde pegamos o navio de Cachoeira – “Paraguassu”.Chegamos a noite e eu observava maravilhado para mamãe que a cidade parecia um presépio e ao passarmos junto ao Forte de São Marcelo perguntei-lhe que “pandeirão” era aquilo?
- E como foi esse inicio de vida em Salvador ? – Meu pai era ambulante na feira de Água de Meninos, vendendo verduras, depois “gari” da Prefeitura, minha mãe foi empregada doméstica. Eu levava a comida de pai e ficava brincando com os “capitães de areia”, até que descobri que os restos eram jogados na maré e comecei a colher as melhores cebolas, descasca-las e vender mais barato, era mais algum dinheiro a levar para casa.
- E o seu primeiro emprego? – Comecei como empregado doméstico aos doze anos, no Bazar Americano porém não abandonava os estudos com preferência por História . Depois Vendedor ambulante, Gandula – na Fonte Nova, Batedor de Ferrugem, Auxiliar de Balcão. Balconista, Gerente e Contador servindo ao Bazar.
- Já como Contador as coisas melhoraram... – Fiz vestibular de Direito, sem êxito, comecei estudar Jornalismo estagiando no Jornal ”A Tarde” depois fui para o Jornal da Bahia e a Tribuna sem deixar entretanto o Bazar, já em 1971.
- Como mudou o rumo da vida para comerciante ? – As dificuldades eram grandes. Um dia cheguei em casa e disse a minha mulher:”Vou deixar o Jornal e o Bazar, juntar o dinheiro e vou arrendar a Cantina da Lua, idéia que não agradou meu pai pois era lugar somente de bebida e dominó ( Já existia a Cantina no mesmo local de hoje, junto ao Bazar). A carta de demissão dizia “Não voltarei jamais a ser escravo, prefiro vender laranja em São Joaquim “.

- Como isso veio dar certo ? – Tomei cento e cinqüenta cruzeiros emprestado de meu pai , comprei talheres, mariscos e outros materiais e coloquei a coisa para funcionar. Já na primeira semana cumpria a promessa pagando o empréstimo.Comecei mudar a clientela pela qualidade do serviço, substituindo o dominó por feijoada aos domingos e a partir daí acabou o jogo. Durante quatro anos passei a gerir a responsabilidade total da Cantina e em 75 o amigo Ferreirinha (Rei Momo) convence o Renato a me vender o ponto.

- O Pelourinho já passou por períodos difíceis, não lhe atrapalhou ?
Desde 1970 começou a queda com o fechamento do Cine Santo Antonio, a Escola de Medicina, a Radio Sociedade saia da Carlos Gomes, transferência de Órgãos do Estado e a mudança da Prefeitura, passamos realmente por momentos difíceis.

Quais as alternativas para vencer a crise? – Criamos programas culturais para manter a sociedade no Pelourinho, um deles a Festa da Benção, Samba do Terreiro aos sábados, quando felizmente –1985, o Pelourinho é tombado como Patrimônio da Humanidade.

As mudanças vieram rápidas? – Não, pelo contrário, os problemas se agravaram com a especulação imobiliária, procedendo-se um despejo coletivo quando através de incêndios provocados até com participação de crianças, agrava-se o problema social.Criamos um programa pela educação infantil, o “Criançarte”, revertendo esse quadro com o envolvimento da comunidade.

E quando se iniciaram as obras de recuperação? – Ainda demoraram, em 87 chegamos ao período mais crítico, quando pensei em vender a Cantina. Somente a fibra de minha esposa me tirou essa idéia, dizendo-me: ”Não se vende amor”. A crise continuava e juntamente com Maria do Carmo (sua esposa) resolvemos vender nossa casa de morada e depois o sítio de Abrantes, lugar onde juntamente com os quatro filhos vivíamos momentos felizes e também desabrochávamos as mágoas, para não perdermos a Cantina e assim fomos nos arrumando.

Uma pausaClarindo Silva neste momento não contém o pranto, enxuga as lágrimas, um pouco de água, um momento de silêncio, e sem que me desce tempo a alguma palavra,voltava a falar.

- Com toda sua popularidade, quem não conhece Clarindo da Cantina da Lua ?
Você pertence não somente a história do Pelourinho, mas a Cidade do Salvador, exemplo de persistência, de fé e até bravura.Me fale um pouco sobre política.
Há cinqüenta e dois anos que realmente eu aposto e tenho fé no Pelourinho e até para defendê-lo melhor em 1986 me candidatei a deputado estadual, sem êxito. Em 1988 e 1992 participei das eleições para Vereador quando me desiludi da política à cargos eleitorais, pelas decepções , traições - dentre as famílias de seus 45 afilhados, um dos compadres estava a receber um salário de um político influente bastante conhecido ( me revelando o seu nome, cala-te boca) para expandir sua liderança. Fato confidenciado por minha comadre, dizendo: “Aqui você terá cinco votos, o meu e dos quatro filhos”. Clarindo exclama: “As mulheres são mais fiéis que os homens”.
Outro fato interessante foi a barganha por três cargos. quando o advogado do pretendente me trouxe um documento para ser assinado firmando o compromisso.
O que leva hoje o Pelourinho a essa situação agonizante? – Os fatores que estão levando o Pelourinho a esta crise é falta de uma política por parte dos governos, federal, estadual e municipal não existindo projetos que criem o envolvimento da nossa sociedade. A mudança da política cultural e a falta de investimentos. Não existe zona azul o que dificulta o acesso de idosos e portadores de deficiência e apesar do policiamento o número de pedintes e desocupados é muito grande, dormem no adro das igrejas e vivem a importunar os turistas.O “Projeto Cultural Cantina da Lua”encaminhou ao Governador, julho, o Relatório de Ações Emergenciais para o Pelourinho.

Para finalizar, Clarindo... – Acho até que na Câmara de Vereadores já usei a tribuna mais que certos Vereadores, principalmente em defesa do Pelourinho.
Em 1985 produzi um filme com cineasta Otávio Bezerra – Resistência da Lua, premiado no Festival Internacional de Cinema (Cuba), ganhando também o Prêmio “Tatu de Ouro” no XVIII Festival Internacional. São vários e vários os títulos recebidos sendo um dos momentos mais emocionantes a entrega pessoalmente nas mãos do Santo Papa João Paulo II, na Catedral Basílica, a carta do Projeto Cultural Cantina da Lua.

-Estes são alguns momentos da vida laboriosa de Clarindo Silva, e juntos saboreando um cafezinho, lembramos algo em comum, quando também tive uma passagem pelo jornal ”A Tarde”, (1965), como “Foca”, fazendo entrevistas, no tempo de Dr. Jorge Calmon, Genésio, Palma, Berberth de Castro.
E este “Foca” se despediu agradecido,torcendo pela "Força da Natureza"e ouvindo de Clarindo: “A um amigo não se grampea as páginas da vida”.
“CLARINDO SILVA É GENTE DA BAHIA”

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